childhood & philosophy

a journal of the international council of philosophical inquiry with children

 

 

EDUCAÇÃO ESTÉTICA: A FORMAÇÃO GLOBAL DOS HOMENS SOB O IMPERATIVO DO PRAZER E DA LIBERDADE

 

Angela Santi

 

RESUMO:

 

A idéia desse artigo é apresentar a educação estética como uma saída para a cisão do homem em corpo (sensibilidade) e razão, entendendo esta cisão como característica estrutural da sociedade ocidental moderna. Tal crítica da cultura aparece em Marcuse no seu Eros e Civilização, e é através dele que visitaremos alguns autores fundamentais à questão estética, tais como Kant - com sua noções de prazer, beleza, reflexão e diálogo, e Schiller - com sua utopia estética, onde o “impulso lúdico” pretende reconciliar os impulsos sensuais e formais (racionais). Através desta trajetória, queremos apontar, ainda que indiretamente, para a recuperação da educação como formação global do ser humano.

 

PALAVRAS-CHAVE: educação estética; utopia estética; formação global

 

 

ABSTRACT:


The idea of this article is to present the aesthetic education as a solution for the split of the man in body (sensitivity) and reason, understanding this split as an structural characteristic of the ocidental modern society. Such critical one of the culture appears in Marcuse, in Eros and Civilization, and is through it that we will visit some basic authors to the aesthetic question, such as Kant, with its notion of pleasure, beauty, reflection and dialogue, and Schiller, with its aesthetic utopia, where the "playful impulse" intends to reconcile sensual and formal impulses (rational). Through this trajectory, we intend to still point, that indirectly, to the recuperation of the education as global formation of the human being.

 

KEY WORDS:  aesthetic education; aesthetic utopia; global formation

 

 

 

Die Idee dieses Artikels ist die ästhetische Erziehung als einen Ausweg zur Spaltung des Menschen in Körper (Empfindlichkeit) und Vernunft zu präsentieren, und man soll diese Spaltung als ein strukturelles Kennzeichen der modernen westlichen Gesellschaft verstehen. So eine Kritik der Kultur erscheint in Marcuse, in seinem Eros und Zivilisation, und wir werden durch ihn einige grundlegende Urhebers von der ästhetische Frage besuchen, so als Kant, mit seinem Begriff von Freude, Schönheit, Reflexion und Gespräch, und Schiller, mit seiner ästhetische Utopie, wo der „traumvoll Impuls" verlange lüsternen und formellen (vernünftigen) Impulse zu versöhnen. Durch diesen Weg haben wir vor, obgleich in einer indirekter Art, die Wiedererlangung der Erziehung als die gesamte Bildung des Menschen zeigen.


ästhetische Erziehung; ästhetische Utopie; Bildung des Menschen



 

O presente trabalho pretende apresentar a relação de infância com a teoria estética ou experiência estética. Trata-se de um percurso teórico que visa resgatar a potência das reflexões estéticas para o processo educativo em geral e sua afinidade com a reflexão sobre a infância como categoria central, porquanto nela encontramos o lócus de uma pretensa totalidade do ser humano.  Infância e estética possuem afinidades estruturais. O apelo feito pela estética à recuperação da unidade do ser humano, cindido pela civilização ocidental em corpo e razão, faz eco nas questões ligadas à infância. A educação estética, por excelência, é a reivindicação da educação como formação global do ser humano, aquilo que a vida adulta perde, depois de ter tido.

Não pretendemos desenvolver uma análise da infância em si, mas apenas remeter nossa análise sobre a dimensão estética como sendo aquela capaz de remeter à recuperação de um ser global, fracionado por um processo civilizatório que se constituiu pela divisão do homem entre corpo-razão; matéria-espírito, etc. Colocamos, aqui, a recuperação da dimensão estética como uma via potente alternativa para o processo educativo atual. Sendo assim, pretendemos apresentar a concepção de “experiência estética”, “dimensão estética”, em diferentes autores e tradições para compreendermos suas implicações para a educação. Pensamos que a educação entendida como formação (tal como entendiam os gregos antigos) deve ser resgatada e, enquanto tal, deve incluir a dimensão estética. Esta deve ser entendida como ligada ao jogo e ao lúdico, a uma nova relação com o tempo e à retomada da experiência associada ao prazer e à realização.

Tal problema, entendido como o problema maior do processo civilizatório segundo a Escola de Frankfurt, é o centro do pensamento de Marcuse em “Eros e Civilização”. Marcuse apropria-se do pensamento de Schiller para pensar uma saída para o homem “unidimensional”, identificado exclusivamente como ser racional. O presente artigo pretende trabalhar a alternativa a este quadro, pensada por Marcuse. Tendo este com fio condutor, estaremos visitando alguns autores que são centrais para a sua reflexão sobre estética – Schiller e Kant, buscando entender como a tradição filosófica definiu a estética e como pensá-la em associação à pedagogia. Sendo assim, apresentamos a seguir o pensamento de Schiller com relação a esta questão (inspirada na análise de Marcuse), seguido do de Kant.

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         Para Schiller existem duas dimensões antagônicas no homem: a sensual e a formal. A primeira é passiva, a segunda ativa. Elas se constituem como dois impulsos básicos que deveriam, não hierarquicamente, construir a vida como um jogo livre. A cultura é produto dos dois, mas a civilização submeteu o impulso sensual ao formal, a sensualidade à razão; "como foi a própria civilização que aplicou ao homem moderno essa ferida, só um novo modo de civilização poderá curá-la" (MARCUSE, 1981, p. 166). Para promover a reconciliação, Schiller pensa um terceiro impulso (porque só os impulsos possuem a força duradoura que pode mudar a existência humana): o impulso lúdico. Este impulso promove a beleza como ordem e a liberdade como fim. Ele viabiliza uma revolução em todo modo de pensar e sentir, é capaz de transformar os homens nas suas instâncias mais íntimas, na estrutura "psíquica" e instintual. Recuperando conteúdos arcaicos, atualizando as expectativas de prazer e abundância, o homem teria liberdade de ser o que "deve ser", o que para Marcuse significa: o desenvolvimento das suas potencialidades (formas puras referentes ao sujeito) condensadas na idéia de liberdade, desprendendo-se da matéria dominante (realidade material repressiva). Dessa forma, a existência perderia o seu conteúdo violento, a natureza e o mundo poderiam ser experimentados primordialmente como objetos de contemplação. A natureza ficaria liberta da sua brutalidade, apareceria na sua riqueza de formas não intencionais e a atividade humana seria a de exibição.

         A influência de Schiller sobre Marcuse está ligada ao fato de o estético projetar a realização de uma utopia política. O estético aparece como aquela dimensão que reunifica a sensibilidade e a razão, e reivindica uma dinâmica de trabalho e vida que viabilize o uso auto-legislado da energia erótica que sustenta a ambos. Schiller contribui para a construção de uma utopia social e política na medida em que pretende o estético intervindo em todos os níveis da existência - na esfera do trabalho, da natureza, da subjetividade e da sensualidade. Ele corresponde a um território ampliado que se liga a uma indefinição de objetos e lugares: o “objeto” privilegiado é  o homem (educação). O estético liga-se a uma experiência peculiar do homem com o mundo, ou, antes, relaciona-se com a pretensão de formação do homem, que significa a  harmonização das suas partes cindidas, através do exercício da beleza: 

 

"(...) a importância da beleza (...) consiste na possibilidade de um aprendizado prático para a verdadeira liberdade política e social, aprendizado este propiciado pela experiência estética. Na arte, a consciência se prepara para uma mudança no mundo e, ao mesmo tempo, aprende a fazer exigências ao mundo real que apressam essa mudança: pois a experiência do imaginário oferece (de um modo imaginário) aquela satisfação total da personalidade e do Ser, à luz da qual o mundo real sai condenado, à luz da qual a idéia utópica e o projeto revolucionário podem ser concebidos". (JAMESON, 1985, p. 75)

 

         A cisão em sensibilidade e razão, natureza e liberdade ou em ciência, ética e estética que define a modernidade (com um processo de racionalização predominante) é em Schiller localizada no funcionamento interno da mente, como uma "deformação" gerada pela supremacia de uma função mental sobre as demais - que representa internamente a deformação que ocorre na realidade social. Marcuse não está interessado na liberdade como um processo intelectual, mas a "interiorização" dessa "deformação" social lhe é bastante sugestiva.

         A assimilação das reflexões de Schiller, por parte de Marcuse, significou um ganho para a esfera política, porque chamou a atenção sobre a sensibilidade. A mudança política passa pela alteração desse "dentro", desse aspecto "íntimo" da constituição da realidade social. Isto que deve ser alterado nos homens significa uma subjetividade que não envolve apenas a consciência, mas "a transformação revolucionária de uma sensibilidade amortecida e uma estrutura pulsional repressiva. Porque a sociedade existente não se reproduz apenas na consciência dos homens, mas também em seus sentidos, a emancipação da consciência deve acompanhar a dos sentidos...". (HABERMAS, 1980, p. 133)

         Nesse "estado estético" utópico, a abolição dos controles repressivos se daria pela libertação da sensualidade. A sensualidade se auto-sublimaria e a razão se des-sublimaria. Essas transformações alterariam a própria esfera do trabalho, que seria agora guiada pelo jogo e pela exibição. A descarga adicional de energia sensual deveria se conformar à ordem universal da liberdade. Tal estágio de ordem não repressiva só se daria num grau máximo de maturidade da civilização; (complementar a isso seria sustar o caráter destrutivo do tempo. A natureza conservadora do princípio de prazer tenderia a abolir o tempo no tempo, conservá-lo na sua intensidade, num tempo vertical.)

         O pensamento de Schiller tem o mérito de contribuir com a noção fundamental da estética como pedagogia, cujo sentido de educação e formação do homem podem ajudar a recuperar a sua vinculação com a liberdade e a felicidade. Os acréscimos de Schiller são relevantes para a constituição da utopia política de Marcuse. Segundo este, a sensibilidade/sensualidade, que permeia toda a realidade (mas reprimida pelo processo civilizatório), tem se refugiado na arte. Então, a verdade da arte é a libertação da sensualidade através da sua dessublimação, da reformulação da civilização através da diluição de processos próprias à atividade artística - como a criação e a produção ligada ao prazer - por toda a realidade. É aqui que entra Schiller, porque através dele pode-se pensar a Estética como pedagogia, como forma de reconciliação das partes cindidas no homem e na vida.

 

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         Antes de Schiller, Kant dedicou-se à reflexão estética na sua “Crítica do Juízo”. Pensando o estético como uma dimensão da experiência do homem com o mundo (e não como uma disciplina ou ciência específica), Kant permite que potencializemos a experiência cotidiana, ordinária, numa vitalização de todas as formas de existência, para além de qualquer funcionalidade ou teleologia. Neste contexto, a noção de prazer e belo são centrais para pensarmos o sentido “revolucionário” da experiência estética elaborada por Marcuse.

         A partir de Kant, o belo não se constitui numa característica imanente ao objeto. O belo é o resultado de uma experiência peculiar, a partir do objeto singular, que se efetiva no sujeito, como reação prazerosa a um acordo não necessário com o particular. O belo é a experiência do acordo entre natureza e razão, mas apenas enquanto "vivenciada" subjetivamente. Para Kant, a "experiência estética" ocorre por ocasião do objeto, mas esse momento inicial é "substituído" pela impressão causada no sujeito, o que significa dizer que a experiência do belo está ligada ao sentimento e não a propriedades do objeto, e que a experiência estética é basicamente aquela do homem voltado sobre si mesmo, sobre o seu estado de prazer e harmonia. De modo geral, esses são os sentimentos que envolvem a experiência do belo, eles ocorrem porque o belo "comporta diretamente um sentimento de promoção da vida" (KANT, 1993, p. 75). e "pressupõe e mantém o ânimo em serena contemplação" (KANT, p. 80).

         O belo está ligado à delimitação. É só a partir da definição, da limitação, que é possível a representação, a inteligibilidade e o domínio sobre o mundo externo. Só ela é capaz de gerar a harmonia e a familiaridade necessária ao homem instalado no mundo. O belo é a satisfação pré-conceitual que o sujeito experimenta, arcaicamente ligada à determinação de um campo de apreensão de objetos. Esse campo é dado pela forma e ligado à conformidade indeterminada de sujeito e objeto. É isto que identifica primariamente o juízo sobre o belo e o juízo de conhecimento, dado que ambos incidem sobre a limitação que possibilita a identificação e a diferenciação das espécies de objetos. Por isto, são essas as faculdades que entram em jogo no juízo estético sobre o belo. A restrição, a forma, é a possibilidade primária do homem dominar o indiferenciado, o informe. Essa "tendência" das coisas e essa capacidade humana, de recortar singularidades desse estofo natural, comum a todos os seres, se reproduz em vários outros níveis, como uma necessidade de clareza e de inteligibilidade sobre o mundo. É através dessa clareza e desse domínio que o homem pode estabelecer-se, numa relação de tranquilidade e serenidade.

        

         O belo reafirma a esfera da subjetividade e vincula sua existência a limite e a forma. Não só a concordância de natureza e homem gera prazer, mas o fato de que essa experiência se faz entre objetos que não se mostram ameaçadores, restringidos em seus poderes pela ação da forma. É claro que, pela caracterização feita por Kant, existe uma vinculação necessária de beleza e forma com a experiência de prazer, de serenidade e de harmonia. O belo se refere a uma atitude de exaltação da vida em termos da reivindicação de prazer e calma. Em Marcuse, a defesa da vida está associada a uma libertação dos sentidos, o que significa dizer: está associada ao exercício do prazer e da satisfação como mecanismos básicos a reger as formas da existência. Esse tipo de associação espera da vida o acolhimento generoso e fraterno, e considera como terrível e inominável apenas aquilo que se refere a uma repressão dos instintos pela sociedade estabelecida, a uma distorção dos objetivos supremos da humanidade (objetivos desencadeadores do processo civilizatório). Na defesa da forma e do belo encontra-se a esperança e o esforço de recuperar uma identidade e um "diálogo" com o mundo, de recuperar a familiaridade com as coisas, de lhes imprimir "humanidade". Subjetividade, beleza, forma, limite e harmonia são aspectos complementares: expressam um mesmo universo de possibilidade de experimentação com o mundo, com o qual Marcuse se identifica.

 

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A noção de prazer está absolutamente ligada à de belo, referida acima. Para Kant, o prazer é o sentimento básico da experiência estética. Trata-se de um dado relevante, porque outras esferas da experiência não se vinculam diretamente (ou de forma evidente) com o prazer. O estético trás à tona o fato de que toda a experiência pressupõe (por mais indiretamente que seja) o prazer. Kant nos informa que o prazer é mérito e especificidade da faculdade estética, e ele aborda isso referindo-se a um "tempo" onde essa especificidade se mostraria com maior evidência. Para ele, não há prazer quando se trata do exercício de conhecimento porque este procede "sem intensão e necessariamente. Mas este prazer já existiu noutros tempos e somente porque a experiência mais comum não seria possível sem ele, foi-se gradualmente misturando com o mero conhecimento sem se tornar mais especialmente notado" (Kant, XL).

O conhecimento racional seria a dimensão determinante e necessária. Cada objeto não é considerado na sua singularidade, no seu aqui e agora, mas automaticamente subsumido ao conceito – geral e indeterminado. O prazer na experiência estética surge como resultado da postura não determinante (e sim receptiva) do sujeito, no seu relacionamento com os objetos (natureza). Mesmo não os determinando, o sujeito percebe que os objetos lhe são convergentes, "adequados" à sua estrutura, e se comunicam com ele em estado de exposição livre e múltipla. Reconhecer-se-ia aqui que homem e natureza convergem, o acordo é espontâneo. É isso que gera prazer: o dar-se conta de que o homem "dialoga" harmonicamente com o mundo, sem necessidade de forçar a confluência.

         Por isso falta algo que no ajuizar da natureza torne o "ânimo" atento à conformidade não necessária da natureza. Essa falta é preenchida através do exercício estético, que se dá a partir dos objetos particulares. A consideração dos objetos na sua individualidade exige dos homens uma atitude de despojamento e abertura, que os leva a retornar sempre ao mundo, para voltar a apreendê-lo. A característica do estético é ao mesmo tempo específica e ampla. Específica porque "deixou de ser especialmente notada" e se concentrou na experiência estética, como o "lugar" por excelência para o exercício do prazer. Porém, é pressuposto de toda experiência possível, ativadora da reivindicação de uma vivência não alienada, consciente e intensa.

         A reflexão é o estado em que o sujeito se encontra na experiência estética. Ele se abre para a recepção dos objetos na sua complexidade, como um fato novo. Através da contemplação, o homem não impõe significados cristalizados às coisas: deixa-as "falar", dá voz ao mundo, que, por sua vez, expõe-lhe mutabilidade e renovação. Por não pressupor ou determinar nada, ela suscita a saída de uma espécie de sonolência que automatiza o sujeito no ato de ajuizar o mundo. É um olhar incomum, descondicionado, que permite ao objeto se mostrar em sua totalidade inesgotável.

Através da experiência estética, o homem pode recordar isso que de tão fundamental, não se tornou mais especialmente notado. É pelo estético que se pode "educar" a subjetividade para a reivindicação do prazer, exigindo-o como regulador de todas as esferas da realidade. A experiência estética estimula uma nova percepção do mundo, guiada pelo prazer e pela liberdade. Ela funciona como um "instantâneo" daquilo que deve permear a existência como um todo, o que significaria, em termos marcuseanos, a realização de uma utopia estética. Se esta já não pode mais se realizar plenamente, o exercício estético não deixa de recordá-la servindo, então, como uma idéia reguladora daquilo que deveria constituir a realidade (mesmo que nunca a constitua plenamente): a realização do homem enquanto livre e feliz. A experiência estética estimula o aprendizado de uma vivência voltada para o prazer, ensinando a recusa de tudo aquilo que na vida (ou pelo menos naquela porção criada pelos próprios homens) represente o seu constrangimento. 

         O tornar mais especialmente notado que Kant fala, quanto ao prazer é, então, justamente aquilo que Marcuse procura desvelar ao reivindicar, através do exercício estético, a recuperação do eixo básico da existência: obter prazer, evitar a dor. Significa o exercício de voltar-se sobre o elementar, primário e essencial da constituição orgânica dos homens, num movimento de desalienação do projeto original da civilização. Esse exercício pode se dar primeiro na estética, como experiência existencial ampla (utopia estética) e depois apenas na arte. Esse estado do homem que deveria permear toda a existência, mesclada com as relações produtivas, sociais e científicas, se concentrou na estética e na arte, tornando-se o seu modo exclusivo de manifestação. A experiência estética lembra, através de uma memória sensível, sensorial (estética), que o objetivo da construção da civilização era a realização mais eficiente e duradoura do prazer.

         Através da atitude reflexiva e receptiva dos homens com os objetos, ocorre uma intensificação do sujeito frente ao seu estado de prazer e harmonia. O belo resulta dessa intensificação e o estimula a voltar-se sobre si mesmo e envolver-se com aquilo que é necessariamente pressuposto, mas não conscientemente analisado (prazer). Trata-se de uma experiência ligada àquilo que é anterior à determinação do conhecimento e às determinações dos objetos, na intervenção dos conceitos: o mundo dos objetos enquanto pura representação, pura existência. Essa intensificação da percepção frente à consciência do sujeito sobre o seu estado, constitui-se não enquanto "epidérmico" ou "periférico": significa um "desabrochamento da vida". A faculdade estética ativa um sentimento de plenitude, de "despertamento da vida" (Hansen-Love, 1983) É no poder desse despertamento que Marcuse está interessado. Através dele, os homens se tornariam mais exigentes, reivindicariam intensidade nas suas relações, a partir de uma organização social mais permeável à liberdade e ao prazer.

         A postura do sujeito contemplador do belo seria a de consciência, concentração e mobilização. É uma postura de abertura, livre de vícios, à multiplicidade com que a natureza se mostra. Há no sujeito uma mobilização, porque a experiência estética não tem como finalidade senão manter-se a si própria. Na pura contemplação, a duração característica do prazer estético se nutre da atividade própria às faculdades.

         Sendo assim, um dos aspectos "revolucionários" dessa experiência advém também de uma nova relação (não repressiva) com o tempo. A experiência estética rompe o fluxo violento do tempo, para nos abrigar numa "estática". Essa duração, através da natureza conservadora do princípio de prazer, tenderia a abolir o tempo no tempo, conservá-lo na sua intensidade, num tempo vertical. Há nesta experiência do sujeito consigo mesmo uma certa demora, uma atração que o retém. É como se paralisássemos o tempo ordinário, numa investida sobre um tempo vertical. Hansen-Love, falando a respeito da finalidade sem fim (a característica dessa experiência ter a si mesma como finalidade), refere-se a tal mobilização:

 

"Uma finalidade sem fim determinante (...) não pode senão se entreter consigo própria: ela é seu próprio fim. O prazer estético tende a se conservar indefinidamente. Na pura contemplação, a duração característica do prazer estético se nutre da atividade própria às faculdades (...) "(HANSEN-LOVE, 1983, p. 42).

 

          Essa idéia funciona aqui como um aspecto complementar à utopia político-estética de Marcuse, a qual ele se refere em Eros e Civilização.

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Outro aspecto importante que a experiência estética estimula é o do "diálogo".
Tal noção é desenvolvida por Kant como dinâmica característica da dimensão estética. O que está sob a esfera do “gosto” refere-se àquilo que é experimentado pela subjetividade e que não apresenta evidência ou inequivocidade. Toda a experiência que é estética ocorre a um indivíduo na sua relação com um objeto particular. O ajuizamento dessa experiência não se apresenta como universal, mas porque é desprovido de interesse, pretende universalidade. Essa universalidade só pode ser conquistada (potencialmente) através da argumentação, do diálogo. Os homens que participam desse "jogo" só têm a seu favor a própria capacidade argumentativa, não podendo fazer uso de conhecimentos já estabelecidos, nem de valores consagrados pela tradição (dado que se trata de um dado novo, não objetivo, mas experienciado). Trata-se da ativação de uma comunidade (potencial) do diálogo, da consideração do espaço público como espaço de discussão livre de coerção. É a partir disso que ganha sentido "discutir o gosto e alargar a esfera da subjetividade pura, para encarar uma partilha não dogmática da experiência estética com um outro enquanto outro homem" (FERRY, 1990, p. 122).

A experiência estética ativa o sujeito, retirando-o de uma atitude condicionada de apreensão e julgamento do mundo. Ela o coloca no seu lugar propriamente humano, de atenção e criação (articulação de sentidos). O diálogo é possível porque o estado característico das pessoas aqui é o de recepção à individualidade das coisas no seu aqui e agora, como se as estivéssemos vendo pela primeira vez. Disso, podemos deduzir que "se eu chego a gostar de alguma coisa em plena liberdade, eu posso então exigi-lo de todos os outros, porque nada nos inclina e a rigor obriga...senão a nossa liberdade" (HANSEN-LOVE, 1983, p. 36). Diríamos "esta rosa que eu vejo agora é bela". Sendo este ajuizamento espontâneo e não necessário, podemos projetar que qualquer outra pessoa, em idênticas condições, poderia dizer o mesmo. Como não estamos no campo dos conceitos, onde a verdade de uma afirmação já está previamente determinada (“a água ferve a 100°” não é algo que possa ser, ou valha a pena ser, discutido), podemos crer na possibilidade de qualquer outro vir a experimentar o mesmo prazer sobre o mesmo objeto, dado que não há nenhum interesse privado envolvido: "a gente quer submeter o objeto a seus próprios olhos..." (KANT, p. 25).

         É dessa maneira que a experiência estética pode estimular nos homens a sua sociabilidade, seu sensus communis. É ele que expressa um "sentido comunitário", que ocorre sempre que o sujeito não se atém tanto sobre "juízos efetivos", mas sim aos "meramente possíveis de outros e transpõe-se ao lugar de qualquer outro" (KANT, p. 157). A esfera do “gosto” possibilita outra forma de experimentação do mundo, uma outra relação do homem com a natureza e dos homens entre si. O duplo aspecto dessa experiência permite uma apreensão dos significados inéditos dos objetos, provocando, assim, o jogo argumentativo entre os homens, na pretensão da universalização da sua experiência particular.

         A partir destes elementos, é possível pensar sobre esse aspecto da experiência estética que afeta o homem coletivamente, que afeta a sua dinâmica de relação com a esfera da cultura, enquanto materialização da vontade e da necessidade humanas. A constituição do universo social e o seu funcionamento não se define como inquestionável e exclusiva, mas sim como inter-subjetiva. É objeto de crítica e intervenção dos homens que o criaram, em cada um dos seus desdobramentos históricos. Com esta associação, é possível pensar que, em termos marcuseanos, a experiência estética, como estimuladora do diálogo, contribuiria para que os homens refletissem, argumentassem e transformassem a sociedade estabelecida - dado que ela, como se apresenta, não viabiliza os ideais humanitários e sociais para os quais foi constituída. A experiência estética suscitaria o exercício crítico e descondicionado dos homens sobre o corpo social, no sentido de decidir sobre aquilo que pode de fato viabilizar a liberdade, a felicidade e o prazer. 

 

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         Por último, gostaríamos de fazermos consideração à idéia de território, já que ela contribui para a afirmação de uma educação estética. O uso deste termo é feito por Kant na Introdução à Crítica da Faculdade do Juízo. Através da noção de território podemos demostrar que não existe uma "extensão geográfica" ou características específicas em certos objetos, que determinem um lugar para a experiência estética e eliminem todos os outros. Não havendo um "terreno" próprio, podemos dizer, então, que a experiência estética não é algo que se encontre num determinado número ou grupo de objetos, não é um dado que alguns objetos detêm. O estético não é objetivo, nem está ligado a um conjunto de regras para a construção de um objeto artístico. Logo, não é possível determinar um território, um lugar, onde, em contato com tais objetos, possa-se necessariamente experimentar sentimentos estéticos.

         Podemos deduzir que a diferença e a força da esfera estética não estão fixadas num território sobre o qual o juízo de gosto exerça domínio, mas no território idêntico ao do conhecimento, onde encontra um "domicílio", baseado apenas num princípio de conformidade com a natureza. O território é amplo. A peculiaridade da dimensão estética refere-se a uma dimensão qualitativa (a experiência da subjetividade) em relação à quantidade territorial. A peculiaridade seria a de, em não tendo lugar, ser possível em todo âmbito da existência, num alargamento que potencializaria a experiência em geral. Por outro lado, se os objetos são apenas o elemento desencadeador/despertador de algo que habita no sujeito e nele se concentra, então, num certo nível, eu posso reter a idéia de um "não lugar" ou um lugar amplíssimo para a experiência estética, concebida enquanto um "olhar" descondicionado sobre o todo da realidade. [1]

        

         Podendo a estética ocorrer em todo território, representando uma postura diferenciada do homem com o mundo, ligada ao jogo e ao lúdico, à suspensão do tempo e à recuperação do prazer e da realização, a educação estética (segundo todo o desdobramento que desenvolvemos acima) torna-se uma via privilegiada para resgatar o sentido unitário e global dos seres humanos, em si próprios e em interação. Apontamos a infância como o momento privilegiado em que encontramos o homem em sua potência estética – integrada, total.  Em Marcuse, a alquimia daquilo que compõe a experiência estética coincide com sua utopia política: a liberdade e autonomia dos homens, baseado na recuperação do princípio do prazer. A educação estética é a educação voltada para a cicatrização desta ferida secular, aquela do homem cindido pela modernidade, a via possível para a transformação subjetiva e social e para a recuperação do homem como ser total e daeducação como lócus da formação de indivíduos livres, belos e verdadeiros .

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

FERRY, L.  Homo Aestheticus. Paris: B. Grasset, 1990

HABERMAS, J. "Arte e Revolução em Herbert Marcuse", in FREITAG, B. E ROUANET, P.S. ( org.):  Habermas, Col. Grandes Cientistas Sociais, vol. 15. São Paulo: Ática, 1980

HANSEN-LOVE, O. Emmanuel Kant, Analytique du Beau. Paris: Hatier, 1983.

KANT, I. Crítica da Faculdade de Julgar. Rio de Janeiro: Forense Universitária,              1993.

JAMESON, F. "Marcuse e Schiller", in: Marxismo e Forma . São Paulo, Hucitec, 1985

MARCUSE, H. Eros e Civilização. Uma interpretação filosófica do pensamento de   

 Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

SCHILLER, F. A Educação Estética do Homem. São Paulo: Iluminuras, 1990


 

 

 

 

 



[1]  É exemplar aqui uma passagem de Cartas a D'Alembert, onde Rousseau recrimina D'Alembert por se ressentir da inexistência de teatros em Genebra (símbolo da monarquia). Rousseau contrapõe ao teatro, a festa (símbolo da democracia), como o lugar privilegiado e livre para o desenvolvimento do espetáculo. Recrimina o teatro como um lugar obscuro, que aprisiona os "espectadores exclusivos"e que os deixa numa posição passiva de silêncio e inação. Para tanto, é necessário que ele transponha os elementos que compõem o espetáculo no teatro para "isto que está em pleno ar, que está sob o céu", como o novo lugar do espetáculo-festa.

                Rousseau teria que pressupor que os elementos fundamentais do espetáculo, da arte podem ser equivalentes no teatro e na festa, e que se preservam nas suas características essenciais, ainda enquanto atividade artística, para só assim poder deslocá-los. Esse deslocamento eliminaria ou evidenciaria os elementos arbitrários  desse tipo de manifestação. Essa ampliação das possibilidades no espetáculo transforma a atividade artística. Esta passa a ser possível na rua, sob o céu: "Basta se plantar uma coroa de flores, reunir o povo e ter-se-a uma festa". Os espectadores transformam-se em espetáculo, transmutam-se temporariamente em atores. Mas os termos constitutivos da manifestação artística, estética, não se diluem, mantêm sua identidade, apenas deslocam-se, ampliam-se. Mantêm delimitado não seu terreno, mas sua identidade de forma e manifestação, como esfera específica e irredutível. Essa minha análise é construída a partir do livro de  FERRY, L. Homos Aestheticus. Paris: B. Grasset, 1990.